Máquinas Que Pensam:
 
 
                 O    torneio   de  xadrez    entre    o    campeão   Garry  Kasparov  e o
    supercomputador IBM   "Deep Blue"  reacendeu  um   debate    que    parecia
    adormecido,  ao  menos  para  o   grande    público:  os   computadores    são
    inteligentes?   Podem   pensar?   Poderão algum dia?
 
                    Quanto à primeira pergunta  - se os computadores são inteligentes -
    a   resposta   depende,    antes    de   mais  nada,  do  que  se    define   como
    inteligência, e das distinções entre   o  artigo  genuíno e algo que poderíamos
    chamar  de  "ação inteligente".   Por  exemplo:  aranhas tecem teias, castores
    fazem   represas  com   gravetos  e  bandos  de   leões  armam  emboscadas,
    como tática de caçada. Cada um desses comportamentos poderia, por si só,
    ser  considerado um  "ato inteligente",  uma  vez   que,  aparentemente,  todos
    envolvem algum tipo de planejamento e conhecimento técnico.
 
                    Mas  sabemos  que  esses  animais  não  possuem inteligência real.
    Suas supostas "ações inteligentes" são fruto da evolução natural, consolidada
    na programação genética da espécie. A emboscada dos leões, por exemplo,
    segue o  mesmo esquema tático há milhares  de  anos. Se os cervos  fossem
    um pouco mais espertos, eles não  cairiam  mais nessa.
 
                    E os computadores? Mesmo  antes   do    "Deep    Blue",    o   termo
    "Inteligência Artificial"  (IA)  já   era   popular  no  mundo  dos  videogames  de
    combate e estratégia, com os  fabricantes   anunciando   que   a  IA   deste ou
    daquele "game" iria arrasar com o adversário humano. Apelo mercadológico?
    Bem, segundo uma definição adotada pelo exército  dos  EUA  -  que  realiza
    intensa pesquisa na área -  uma  "atividade  inteligente"  é  aquela   que   usa
    símbolos para representar aspectos de um determinado problema;  manipula
    esses símbolos em busca de uma  série  de  soluções em  potencial;  e  testa
    as soluções, em busca da melhor possível.
 
                 Por esses critérios, pode-se dizer que qualquer computador rodando
    um videogame de estratégia,    ou     jogando    xadrez,     estará,     de    fato,
    desempenhando "atividade inteligente". Na verdade,  esse    parece   ser   o
    objetivo   da   IBM   com   a   linha    de   computadores    representada   pelo
    "Deep  Blue":  criar   sistemas  especialistas,    capazes   de  agir  de  forma
    inteligente  em determinados  campos - jogo de xadrez,  pesquisa científica,
    administração  de  sistemas  de  tráfego,  meteorologia, etc.  Inteligência de
    verdade...  mas, e a inteligência "de  verdade" ?; é  a   inteligência  humana.
    Um   dos   problemas   no   estudo   do   fenômeno   inteligência  é   que   só
    conhecemos um exemplo - nós mesmos. Cientificamente, é difícil definir um
    objeto de estudo  quando só se tem um exemplo. É como se todos os gatos
    do mundo fossem brancos:  talvez, ao encontrar um gato preto, os cientistas
    não percebessem que se tratava da mesma espécie.
 
                   Da mesma maneira, corremos  o     risco     de     esbarrar     numa
    inteligência não humana e sermos incapazes de reconhecê-la.
 
                 Apesar disso, uma tentativa de definir a inteligência de forma global -
    isto é, com critérios que  poderiam  valer tanto para seres humanos   quanto
    para  marcianos  ou computadores - inclui, ainda de acordo com o   exército
    americano, os seguintes pontos: capacidade de comunicar-se;  criatividade;
    capacidade de aprender; comportamento orientado ao objetivo; consciência
    de si mesmo. Cada um desses critérios é necessário,   isto  é,      para    ser
    declarada inteligente, uma criatura qualquer deverá possuir todos eles.
 
                    Até  o  momento,  os  computadores  podem  comunicar-se,  podem
    ser programados para ter comportamento orientado ao objetivo, são capazes
    de simular uma certa criatividade (já existem  telas pintadas por  computador)
    e  a  tecnologia  das  redes  neurais  parece  estar desenvolvendo   máquinas
    dotadas de uma limitada capacidade de aprendizado. Só falta,  então,  juntar
    isso  tudo  numa  mesma  tecnologia consistente e -  algo  de    que  nenhuma
    máquina ainda chegou  perto  -  dotar  o   computador   de     autoconsciência.
    Nesse dia, talvez a máquina  repita a  frase de  Descartes   -   "Penso,     logo
    existo"  -  ou,  mais  assustador    ainda,  o   versículo    com    que    Deus    se
    identificou para Moisés: "Eu Sou Aquele que É".
 
                    Redes  e  acidentes, nada  disso  está    no    horizonte   tecnológico,
    portanto podemos  dormir   tranqüilos.  Mas,  e  se   a    inteligência     artificial
    surgisse  por  acidente? A ficção   científica   mostra, como   tema   recorrente,
    essa      situação     acontecendo     em    dois   casos:   quando   a     máquina
    desenvolve   consciência   devido  ao    mero    acúmulo     de     informações  -
    situação  cristalizada  na famosa   anedota    onde    o    maior    computador  -
     banco  de   dados  do Universo, ao ouvir a pergunta "Deus  existe?",    fulmina
    seu  criador  com  um  raio  e  responde: "Agora, existe" -   e    no    surgimento
    espontâneo de inteligência a partir de redes extremamente complexas.
 
                    Essa   segunda   situação  parte  do  pressuposto biológico de que a
    consciência humana apareceu espontaneamente  na  natureza,  e  que isso se
    deu quando a rede de neurônios do cérebro se tornou grande, ágil e complexa
    o suficiente. Se  encararmos ou  neurônios como meros emissores-receptores
    de  impulsos   elétricos, podemos concluir  que qualquer outra rede desse tipo -
    de  computadores,  telefones,  rádio  ou  televisão  -  acabaria    desenvolvendo
    consciência   própria   ao   atingir    um    determinado    tamanho    e   grau    de
    complexidade.
 
                    Para nossa sorte, a rede  de neurônios do cérebro tem  vários bilhões
    de terminais, e a eficiência   da  troca de  informações  entre eles põe qualquer
    modem no  chinelo. De qualquer  forma,   seria   interessante   se,  de   repente,
    nosso   universo  eletrônico  altamente integrado - composto por computadores,
    celulares, pagers, WebTVs, caixas eletrônicos - começasse a pensar por conta
    própria (aliás, quantas vezes seu cartão do banco foi engolido pela máquina sem
    motivo aparente?). A solidão humana  teria   fim;  pela  primeira  vez  nós, como
    espécie, teríamos um interlocutor, não vindo   das    estrelas,   mas   criado aqui
    mesmo.
 
 
" E sempre poderemos puxar a tomada ...  "