HUMANIDADE EM XEQUE?
 
 
                        O campeão mundial de xadrez perde para  um   computador   e   a
    humanidade  pensa estar em xeque. Será  o   xeque-mate?   Não,   ainda    vai
    demorar algum tempo  para  que  esse risco   deva   ser  levado   a   sério.    O
    momento   é  de  dirimir  dúvidas   antropomórficas     sobre     a    emergência
    de raciocínio e inteligência   em    máquinas.    Para    isso,    é    preciso    que
    entendamos a correta relação entre cérebros e computadores.
 
                     A analogia entre o computador Deep Blue e Kasparov é indevida: o
    primeiro faz milhões de cálculos por segundo, usando uma lógica digital (sim ou
    não, 0 ou 1); o segundo utiliza uma forma analógica de processamento  (todas
    as   gravações  possíveis  entre  um  número e o outro,  incluindo  aí  o 0 e o 1).
     O processamento  analógico  somado  à  simultaneidade  de múltiplos canais
    dota o cérebro de capacidades insuspeitáveis a Deep Blue. O digital, somado
    à velocidade do chip de sílica, é capaz   de   nos   derrotar    no    xadrez.    Nas
    metáforas, alegorias, cenários complexos e,  sobretudo,   na   capacidade    de
    engendrar sociedade e moral, ainda não.
 
                  Algumas dicotomias são fundamentais    para    que    se   entenda    a
    diferença entre o cérebro humano, dotado de  mente   e   personalidade,   e   o
    computador    Deep    Blue.   Deep   Blue     tem   um   conjunto   harmônico   de
    processadores   centrais   comandando   suas   operações; Kasparov não  tem
    qualquer sucedâneo de controlador central.  Deep  Blue   tem   memórias   com
    endereços claros, sensíveis à destruição por qualquer  curto-circuito; Kasparov
    tem memórias distribuídas por grande parte de seu cérebro, o que faz com que
    resista ao envelhecimento sem que com isso se apaguem  arquivos  inteiros  e
    se percam   referências  vitais. Deep Blue não aprende,  não  tem infância, não
    interage com os outros e não   descobre a mentira como artificie da separação
    entre  o mundo interior do  desejo e o exterior da repressão; Kasparov aprende
    e se organiza de acordo com a experiência pretérita, sua e de sua cultura. Deep
    Blue opera através de um programa,  em  que  pese  programa sofisticado que
    permite a harmonização sincrônica dos múltiplos processadores  (pseudo-noção
    de   processamento   paralelo,    tecnicamente    chamada   de    processamento
    cooperativo), mais ainda assim software; Kasparov tem processamento paralelo
     legítimo, sem controlador central,   operando   sem   software  bem  delimitado -
    no cérebro  tanto software quanto hardware se mesclam  numa só  operação  de
    oscilação   e  sincronização de neurônios.
 
                        Só existe mente quando, ao   perigo   de   falhar    no   cálculo,    se
    acrescenta o  perigo de falhar na expectativa depositada sobre si. Essa carga
    humana, ainda  hoje  dificilmente reproduzível em máquinas. As emoções  e  a
    vontade, propriedades inimagináveis a Deep Blue, coroam e colorem a nossa
    espécie. Enquanto a máquina não  as tiver  será  apenas uma  traquitana  sem
    inteligência genuína. Deep  Blue  não  tem  estilo;  Kasparov  tem  estilo;  Deep
    Blue não tem humor; Kasparov não voltará a ter tão cedo.
 
                        Problema técnico suplementar advém da natureza digital-formal  de
     Deep  Blue. Como quase todos os sistema desse tipo, está   sujeito à  parada
    (isso  é   tecnicamente   conhecido   como   problema   de   indecidibilidade  de
    gödeliana e parada de uma máquina de Turing, espécie de computador teórico
     ideal, infinitas  vezes  superior a Deep Blue)   fato  que  o  impedirá  de  decidir
    sobre o passo seguinte ou sobre a verdade ou falsidade  de  uma  sentença.  A
    consciência humana, ponto nodal da mente que emerge do cérebro,  não  exibe
    “parada” diante de determinados  problemas  em  que  Deep  Blue  entraria  em
    looping  (vulgo “parafuso”). Isso advém da natureza analógica do processamento
    cerebral  como querem ou talvez - segundo os   mais   afoitos  cientificamente  -
    de   sua   natureza   quântica   e  não-algorítmica (isto é, não calçada  no  seguir
    regras    estritas,    bem    delimitadas     e  seqüenciais de operação).
 
                         Um computador ou qualquer máquina que um dia seja programada
    com  o código  analógico   que    utilizamos    talvez    seja  capaz   de    crescer,
    aprender,  inserir-se na comunidade e agir como nós. Para isso a máquina não
    será programada  nem  terá   a   velocidade   do   computador    da     IBM;   sua
    inteligência não   será   programa   que   avalie  exaustivamente  a  hipótese   já
    pronta, mas algo capaz de criar teorias  a   partir    de   um   pouco,  testando-as
    transformando-as em   conhecimento  legítimo.   Um  computador   que   precisa
    percorrer o planeta inteiro inspecionando cada gato,  cortando-o  em   fatias    e
    decompondo-o ao limite, nem por isso será capaz de entender   a   graça   e   o
    humor do desenho simples do gato Garfield comedor de lasanhas.  Deep    Blue
    dificilmente entende  metáforas  e  nós rapidamente  as  entendemos.   Afinal,  a
    mente que surge da  comunhão  dos   neurônios   não   é   substância   imaterial,
    espírito ou alma. É antes de tudo uma propriedade   da  matéria   física   cérebro
    em contato com a linguagem e a cultura.
 
                        Dota-se   uma  máquina  do   correto   código    cerebral,   fazendo-a
    interagir dinamicamente com outras, quer na ação pura, quer na ação valorada e
    prudente,   e teremos uma réplica do humano. Porém, não se assustem aqueles
    que   vêem nessa  possibilidade o final dos tempos. Não sabemos ainda qual  o
    código analógico que o cérebro utiliza na forja do mental e nem temos máquinas
    que    o    repliquem  na   totalidade. A    tarefa    de   estudar    esse   código,   de
    compreender o  surgimento  do     pensamento,    da inteligência, da emoção, da
    vontade, da memória, criando-lhes  análogos   artificiais   que nos  auxiliem    em
    diferentes tarefas é função da  ciência   cognitiva, super disciplina com quase 50
    anos de idade no Primeiro Mundo, mas no  Brasil   ainda   vista   com   um   certo
    desdém.
 
                        Quando não é entendida como um  fenômeno   biológico    localizado
    no   cérebro humano, a mente fica acuada como   Kasparov  na   sexta   e   última
    partida da disputa  com  Deep  Blue. Essa  incompreensão gera um sem-número
    de flancos para a  proliferação  do  esoterismo desenfreado, para os manuais de
    auto-ajuda, para a irracionalidade que campeia  e de que se servem os ignorantes
    e também os arrivistas que vendem bem-estar e salvação para a mente que sofre.
    Gera ainda subproduto danoso que é a não aceitação  de   que a   mente,   como
    qualquer função do corpo pode adoecer. Nesse sentido, a figura emblemática de
    Deep Blue, antes de sitiar a condição humana,  pode    resgatá-la    do    desvario
    pseudo místico, recolocando a mente no cérebro e o conhecimento sobre eles no
    devido lugar,   menos   devassado   aos    “achismos”    dos    esotéricos    afoitos,
    encantados  com   barroquismos lingüísticos pseudo-significativos.
 
                        O xeque imposto à condição humana com conseqüência mais danosa
    que  o desconhecimento da natureza cerebral da mente normal e  desviada   é   a
    perda   de   valores claros na relações sociais. Sabe-se  hoje   que   a   ética  e   a
    solidariedade, antes de imposições externas, sociais ou religiosas,  são   atributos
    biológicos.   Os   macacos   as   têm;   também  animais inferiores. Computadores,
    por ora, nem sequer a esboçam, demonstração clara  do quanto  seus   projetistas
    pretendem resolver problemas, porém  nem  de   longe   semelhantes aos dilemas
    humanos. Será que nós, que somos o ponto   apical da    biologia    do    ser    vivo,
    vamos deixar que o sistema econômico e político dos dia de hoje nos  faça pensar
    que   a mente é apenas algo forjado para dissimular,  esconder,    auto-emancipar,
    esquecendo-nos  da solidariedade e respeito com o semelhante?
 
                        A mente e a humanidade estão em xeque se não entendermos que o
    cérebro cria a consciência individual e a coletiva (o computador joga xadrez mas
    não há  ninguém   que   lhe ouse   imputar   a  consciência ).   Da   interação entre
    as consciências pode surgir   uma comunidade de deveres e direitos pleno, com
    alguma   justiça   que   preserve   a   todos.  Do  contrário, serão   a   barbárie e a
    aniquilação. Não estamos em   xeque   pela   máquina   digital.  Seremos  um dia
    replicados em máquinas e espero que elas não pratique   o   jogo no qual  temos
    demonstrado habilidade infinita: a hipocrisia e o descaso com o semelhante  que
    anda   à    mingua   desempregado e excluído. Mas é preciso  cuidado,   pois   os
    computadores   que   surgirem   dessa    época   de    individualismo desenfreado
    poderão    também   saber   jogar  pôquer - blefando inclusive - e   o  jogo  poderá
    ser   desigual.   Podem   surgir   tiranos   nunca dantes vistos entre  as  máquinas,
    tais como já vimos surgir entre os seres humanos.
 
                            O problema deste final de  milênio   não   reside   na   replicação   e
    execução de funções mentais por computadores, fato que cedo ou tarde ocorrerá.
    Reside,    outrossim,  no    modelo   de   ser   humano   e   sociedade     com    que
    recepcionaremos essa nova classe artificial de convivas  do circo social.
 
 
                                                                               Médico-psiquiatra e coordenador do Grupo de
                                                                                                                   Ciência  Cognitiva  do  Instituto   de   Estudos
                                                                                                                   Avançados da USP  e  autor  de  “O  Sítio  da
                                                                                                                   Mente:  Pensamento,   Emoção   e   Vontade
                                                                                                                   no Cérebro Humano”.