Entrevista de Marvin Minsky  
 
 
                IÉ- A natureza consumiu centenas de milhares de  anos para desenvolver
        um    cérebro inteligente como o do ser humano. O Sr. acredita que realmente
        poderemos superar a natureza e desenvolver um cérebro eletrônico inteligente?
                MM- Sim. Creio que sim. Mas, antes temos que entender como o cérebro
        funciona. Depois,   é   fazer   com    que   os    computadores     repitam    esse
        funcionamento. O fato é que não  sabemos anda o suficiente sobre  o  cérebro
        humano.
 
                - Por que é tão difícil entendê-lo?
                MM- Acho que é difícil porque nós temos idéias errôneas sobre o cérebro.
        Em primeiro lugar, temos que jogar essas idéias fora.
 
                - Que tipos de idéias?
                MM- Por exemplo, a que diz que a emoção é  mais   complicada    que   o
        senso comum e a razão. Essa é a parte mais  complicada.   O   pessoal    tem
        trabalhado nos  problemas  errados.  Além  disso, temos uma má tradição  na
        ciência  da   computação. Que diz que quando  você   escreve   um  programa
        para fazer alguma coisa quer que o computador faça isso de   forma   perfeita.
        Para realizar uma tarefa, o cérebro humano tenta várias possibilidades, vários
        caminhos de ação e,  se um não der certo, ele tenta outro diferente. O cérebro
        não tem medo de errar. Os computadores concebidos até  hoje   foram   feitos
        para não errar, sob hipótese alguma.
 
                - O sr. realmente acredita que os computadores terão consciência?
                MM- Eu acho que   até   os   mais   antigos  computadores  poderiam  ter
        consciência.  Uma consciência muito simples, sem dúvida, e por isso mesmo
        pareceriam estúpidos. Isso porque a consciência acontece quando a máquina
        tem informações sobre si mesma. Podemos fazer isso  a  qualquer momento,
        mas ainda não podemos fazê-las com um inteligência comparável nem sequer
        à de uma criança pequena.
 
                - E o senso comum?
                MM- Essa é a parte mais difícil. Mas há uma razão  para  isso.  O   senso
        comum, ou o bom senso, é realmente complicado, mas o  fato é  que  não  se
        faz pesquisa sobre ele.  Trabalham  neste   campo   hoje  umas   cinco,  talvez
        dez. É só comparar os números. Na indústria de  computadores   há   milhões
        de programadores e dezenas de milhares de pesquisadores.  Mas  só   cinco
        ou dez estão trabalhando com o senso  comum. Alguma   coisa   está   errada
        com   a   indústria   de   computadores.   É   esse   o   problema.
 
                - O sr. foi  consultor do diretor Stanley Kubrick no filme já clássico 2001
        uma odisséia no espaço. Naquela história, o  computador   HAL   9000   tinha
        medo   de   ser   desligado.   Quanto   tempo falta para chegarmos  a  ter  um
        computador como esse?
                MM- Fazê-lo ter medo é fácil. O difícil é fazê-lo ter inteligência. Todas as
        coisas emocionais são muito simples. Mas, antes, você tem que dar à máquina
        condições para  ela   resolver  problemas muito   simples,   como   entender   o
        significado     das     palavras.     Hoje     já     temos     condições       de     fazer
        computadores  com sentimentos, mas eles   não   fariam   nada   de   produtivo
        porque   não   teriam inteligência o suficiente para aprenderem sozinhos.
 
            - Quão inteligentes já são hoje?
            MM- Tanto quanto uma criança normal de três anos.   Podemos dizer  que  a
        inteligência é a  capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo. É assim
        que você consegue dirigir um carro por uma  estrada,  trocando  as  marchas e
        fazendo   curvas   ao   mesmo   tempo  que resolve   um problema mentalmente
        ou conversa com outra pessoa sobre algo que está muito  longe   dali. Se você
        pedir a uma criança que coloque um lápis em uma caneca  ela   irá   tentar   de
        várias  formas, aprendendo com os erros, até conseguir. Os computadores hoje
        não conseguem fazer isso. Uma criança sabe que pode puxar  um  objeto   com
        uma corda, mas sabe também que não pode  empurrar   um  objeto   com   uma
        corda porque percebe que ela é flexível.  Isso  é  senso  comum.  Para   fazer   o
        computador   agir   dessa  forma, inserem-se  ele   centenas   de    informações.
        Sem elas, ele  não   pode  fazer nada porque é incapaz de entender o que está
        acontecendo.
 
                - Se houver robôs  que    podem    executar    tarefas   inteligentes,  como
        ficarão as atividades profissionais mais sofisticadas? O que o homem vai fazer
        se as máquinas fizerem tudo por eles?
                MM- Isso é uma questão política. Quando fui à    ex-União    Soviética    nos
        anos 80, percebi que  lá não havia desemprego porque os trabalhadores faziam
        qualquer atividade estúpida, como abrir portas para você, apertar parafusos etc.
        Portanto, é fácil encontrar trabalho para todos. É  só  uma questão de política. O
        problema é que a maioria das atividades primárias não precisa mais de homens
        ou  mulheres  para  fazer  o  trabalho  necessário.  Por  que  não  pagá-los   para
        praticar esportes? O problema que hoje se paga muito para  poucos  praticarem
        esportes.  Poderia se pagar menos para um número maior de pessoas. Falando
        sério, quando tivermos  robôs  para fazer a maioria das coisas que têm que  ser
        feitas, ninguém mais vai precisar trabalhar. Teremos que ser mais criativos para
        encontrar coisas para se fazer. Caso contrário, corremos o  risco  de   passar  a
        maior parte do tempo assistindo a filmes.